Um novo estudo da Universidade de Cambridge descobriu que alguns genes relacionados a características comportamentais em golden retrievers estão intimamente relacionados à personalidade humana e à saúde mental, incluindo treinabilidade, medo de estranhos, níveis de energia e agressão a outros cães. Os investigadores salientaram que estes resultados não só ajudam a explicar porque existem enormes diferenças na timidez, vivacidade e agressividade entre indivíduos da mesma raça canina, mas também fornecem um novo ponto de entrada para a compreensão do mundo emocional dos cães e de alguns problemas mentais e psicológicos humanos.

O estudo, publicado no Proceedings of the National Academy of Sciences em 24 de novembro, é o primeiro a provar sistematicamente numa única raça de cão que os genes que afetam o comportamento canino também estão envolvidos na regulação de características humanas como ansiedade, depressão e inteligência. A equipe de pesquisa analisou os dados genômicos de 1.300 golden retrievers com idades entre três e sete anos, combinados com questionários detalhados preenchidos pelos donos de cães, para pontuar 73 categorias específicas de comportamento e, finalmente, resumiu-os em 14 categorias que podem prever de forma estável as características comportamentais caninas. Eles então conduziram análises de associação genômica para encontrar marcadores genéticos correspondentes.
Depois de comparar os dados genéticos e comportamentais do golden retriever com um grande banco de dados genético humano, os pesquisadores descobriram que pelo menos 12 genes relacionados ao comportamento do golden retriever também demonstraram estar relacionados a características emocionais e cognitivas em estudos humanos. Por exemplo, o gene ROMO1 que afecta a "treinabilidade" dos golden retrievers está relacionado com o nível de inteligência e sensibilidade emocional nos humanos, o que significa que treinar um cão não é apenas um processo de formação comportamental, mas também está intimamente ligado à sua capacidade inata de regular emoções. Outro gene, denominado PTPN1, tem sido associado à agressão a outros cães em golden retrievers e ao desempenho intelectual e ao risco de depressão em humanos.
O estudo também descobriu que uma variante genética comum em golden retrievers que têm “medo de outros cães” corresponde à tendência de “preocupação repetida a longo prazo após experiências embaraçosas” em dados humanos, e também está relacionada com um maior desempenho educacional, sugerindo que existe alguma base emocional-cognitiva comum entre as espécies. A equipe de pesquisa enfatizou que esses genes não “determinam” um comportamento específico, mas afetam o padrão de resposta emocional de um indivíduo e a capacidade de regulação comportamental a estímulos externos. Por exemplo, os golden retrievers que mostram um forte medo de coisas “não sociais”, como ônibus e aspiradores de pó, têm genes correspondentes em humanos que estão relacionados à irritabilidade, à sensibilidade e à tendência de procurar tratamento médico devido ao “nervosismo ou ansiedade”.
Os pesquisadores apontaram que algumas das manifestações consideradas “maus comportamentos” por seus donos provavelmente decorrem do fato de que esses cães são geneticamente mais propensos a sentir que o mundo está cheio de estresse e ameaças. Se as experiências de vida negativas forem sobrepostas, é mais provável que desenvolvam reações graves de medo, evitação ou agressão, que se devem essencialmente à dor e ao estresse, em vez de "não serem ensinadas suficientemente bem". Como resultado, a equipa apela aos donos de cães para que tenham mais empatia quando confrontados com os comportamentos medrosos e sensíveis dos golden retrievers, e que compreendam as forças genéticas por detrás deles, em vez de simplesmente atribuí-los a um treino inadequado.
No nível prático, os resultados da pesquisa fornecem novas ideias para o treinamento de cães e intervenção comportamental veterinária. Uma vez que a “treinabilidade” está ligada a genes relacionados com a sensibilidade emocional, os investigadores sugerem que o treino deve ter em conta a carga emocional e a sensação de segurança do cão, em vez de apenas verificar se as instruções foram cumpridas; para aqueles indivíduos que são naturalmente mais ansiosos, a exposição ambiental gradual e a formação de experiências positivas podem ser mais eficazes do que o treinamento de alta pressão. Por outro lado, se se sabe que certos genes associados ao comportamento de medo ou ansiedade em cães estão envolvidos em transtornos de ansiedade em humanos, então espera-se que os medicamentos ansiolíticos humanos e as estratégias de intervenção sejam mais exploradas e validadas no campo veterinário.
Este estudo baseia-se no "Golden Retriever Lifelong Study" lançado pela Morris Animal Foundation em 2012. Este projeto acompanha a saúde e o comportamento dos cães durante um longo período de tempo e coleta regularmente amostras de sangue e dados de questionários comportamentais. A equipe de pesquisa usou esses dados para quantificar as pontuações de cada cão em 14 dimensões comportamentais e, em seguida, rastreou marcadores genéticos que estavam significativamente associados a grupos de pontuação alta e baixa em todo o genoma, ligando assim características comportamentais específicas a regiões específicas do genoma e, em seguida, conduziu análises correspondentes com bancos de dados de genética humana. Os autores do artigo acreditam que os cães de estimação que vivem em famílias humanas não só partilham o nosso ambiente físico, mas também enfrentam desafios psicológicos semelhantes até certo ponto e, portanto, espera-se que se tornem modelos animais importantes para o estudo de algumas doenças mentais e distúrbios emocionais humanos.
O artigo intitulado “Estudo de associação genômica de características comportamentais em golden retrievers revela genes relacionados ao temperamento humano, saúde mental e cognição” foi concluído por uma equipe de pesquisa da Universidade de Cambridge e vários colaboradores, e foi financiado pela Morris Animal Foundation. Embora a investigação destaque ainda mais o vínculo emocional entre humanos e cães, também lembra às pessoas que, no processo de convivência com animais de estimação, prestar atenção à sua “saúde mental” é tão importante como prestar atenção à sua dieta e exercício.