A Câmara dos Comuns britânica debaterá a introdução de um cartão de identidade digital nacional (ID Digital) no dia 8 de dezembro. Uma petição relacionada recebeu quase 3 milhões de assinaturas no site do parlamento, refletindo a grande preocupação e desacordo do público sobre esta questão. Ainda não existe um sistema nacional de cartão de identificação unificado no Reino Unido e os residentes geralmente usam passaportes e cartas de condução como principais documentos de identificação; durante a década de 2000, quando Tony Blair estava no poder, o governo tentou implementar um plano de carteira de identidade física, mas acabou sendo arquivado devido à opinião pública e à oposição política.

Na véspera deste debate, o grupo britânico de defesa dos direitos digitais Open Rights Group (ORG) alertou publicamente que o esquema de identidade digital promovido pelo governo está essencialmente a construir uma "infra-estrutura de vigilância digital" que pode mudar fundamentalmente os estilos de vida sociais. A organização salientou que, uma vez implementado um sistema nacional de identidade digital, o "aumento da missão" será quase inevitável e as pessoas serão forçadas a utilizar este sistema de identidade cada vez mais em cenários diários, abrindo assim a porta ao Estado para realizar um acompanhamento e registo sem precedentes das interacções entre os indivíduos e o governo.
Sara Chitseko, gestora do Programa Pré-Crime da ORG, disse que as actuais práticas enganosas das autoridades na promoção da utilização de identidades digitais minam ainda mais a confiança do público no programa. Ela enfatizou que mesmo deixando de lado a posição dos direitos digitais, existem argumentos a favor e contra a introdução de um sistema de identidade digital que merecem atenção, mas o governo precisa de dar instruções mais claras sobre transparência e definição de limites.
Como argumento, o Open Rights Group citou um novo estudo sobre o actual sistema de vistos electrónicos (eVisa) do Reino Unido, argumentando que este sistema de identidade digital para grupos de imigrantes forneceu uma “lição” para a promoção nacional de identificações digitais. A investigação mostra que o sistema eVisa tem estado repleto de problemas como erros de dados, falhas técnicas e interrupções de rede, fazendo com que muitos imigrantes não consigam provar o seu estatuto de residência legal no Reino Unido em momentos críticos. Como resultado, foi-lhes recusado o embarque, tiveram os seus compromissos de emprego ou hipotecas revogados e até ficaram sem abrigo em casos extremos.
Os grupos de defesa da privacidade sublinham que a pressão para um sistema nacional de identificação digital para aplicar a política de imigração não é logicamente justificada porque a gestão da imigração existente não exige um conjunto de identificações digitais que abranja todos os residentes para funcionar. A ORG defende que o governo deve dar prioridade à reparação e melhoria dos sistemas existentes, como o eVisa, em vez de investir cerca de 1,8 mil milhões de libras adicionais na construção do que chama de “programa de vigilância para toda a população”. Esta crítica acrescenta um novo foco de controvérsia ao próximo debate sobre a identidade digital na Câmara dos Comuns, e também destaca a tensão entre a protecção da privacidade e o interesse público no avanço dos assuntos governamentais digitais.