O potencial enfraquecimento da AMOC (Circulação Meridional Atlântica) tornou-se uma grande preocupação para os cientistas do clima. No entanto, à medida que o sistema se aproxima de um possível ponto de viragem, as suas consequências exactas e quando poderão ocorrer permanecem incertas.
Para compreender melhor estes riscos, a climatologista da Universidade de Gotemburgo, Céline Heuzé, juntou-se aos investigadores alemães Marylou Athanase e Raphael Köhler para estudar o futuro do Giro Beaufort, a principal corrente do Oceano Ártico. Localizada no Mar de Beaufort, ao norte do Alasca e do Canadá, esta corrente desempenha um papel fundamental no sistema climático do Ártico.
O Giro Beaufort atua como um reservatório gigante, armazenando e liberando água doce. Os seus efeitos estendem-se para além do Ártico, afetando as condições oceânicas no Atlântico Norte.
Mas o aumento das temperaturas no Ártico está a fazer com que o gelo marinho da região diminua rapidamente. O gelo marinho geralmente atua como isolamento, mantendo o oceano fresco. À medida que o gelo marinho desaparece, mais calor atinge a superfície do oceano, acelerando o aquecimento e causando ainda mais derretimento do gelo. Nas últimas duas décadas, o conteúdo de água doce do Mar de Beaufort aumentou 40%.
Um dos principais sistemas de circulação oceânica que os climatologistas monitoram de perto é a Circulação Meridional do Atlântico (AMOC). Este sistema inclui a famosa Corrente do Golfo, uma vasta rede de correntes no Oceano Atlântico. É impulsionado por diferenças na densidade da água: a água quente e salgada dos trópicos flui para o norte ao longo da superfície, esfria quando atinge latitudes mais altas, torna-se mais densa e depois afunda. Estas águas mais frias e profundas fluem então de volta para sul, criando um ciclo contínuo que ajuda a regular o clima em toda a região do Atlântico.
“Os resultados deste estudo fazem-nos temer que a diminuição do gelo marinho na região possa levar a um ponto de inflexão para o colapso da AMOC”, disse Céline Heuzé, professora sénior de climatologia na Universidade de Gotemburgo e especialista em águas profundas e gelo marinho.
Neste estudo, os investigadores utilizaram apenas modelos climáticos globais que representam com precisão a circulação de Beaufort para as suas previsões. Os modelos climáticos são simulações computacionais do sistema climático da Terra (atmosfera, oceanos, terra e gelo). Os modelos climáticos são usados para reconstruir o clima passado ou prever o clima futuro.
"Sem reduções urgentes nas emissões de gases com efeito de estufa, esta projeção sugere que o Giro Beaufort irá enfraquecer e libertar a água doce que contém atualmente. Esta água doce pode então chegar ao Atlântico Norte e potencialmente ter um impacto negativo na AMOC", disse Marylou Athanase, investigadora do Instituto Alfred Wegener na Alemanha e primeira autora do estudo.
A AMOC faz parte da Corrente do Golfo, que é crítica para o clima da Escandinávia porque transporta água quente para altas latitudes no Hemisfério Norte. Os investigadores querem agora examinar mais de perto como a ligação entre a perda de gelo marinho no Ártico e o enfraquecimento da AMOC pode desenvolver-se no futuro.
Compilado de /ScitechDaily