Uma equipe internacional que inclui pesquisadores da Universidade de Maynooth desenvolveu uma nova molécula que tem potencial para combater bactérias resistentes a medicamentos. A resistência antimicrobiana (RAM) é um fenômeno no qual bactérias, vírus, fungos e parasitas evoluem ao longo do tempo para se tornarem imunes a medicamentos. Esta resistência torna a infecção mais difícil de tratar, aumentando o risco de doença prolongada e morte.
Prevê-se que, até 2050, os antibióticos tradicionais terão perdido em grande parte a sua eficácia devido ao aumento dos níveis de RAM, pelo que encontrar novas formas de erradicar as bactérias tornou-se uma prioridade máxima para a comunidade científica.
Química supramolecular: a chave para combater a RAM
Esta pesquisa aproveita os princípios da química supramolecular, um campo científico de nicho que explora as interações entre moléculas, para alcançar esse avanço. Mais importante ainda, o estudo identificou moléculas que são eficazes para matar bactérias, mas que apresentam toxicidade mínima para células humanas saudáveis.
A nova investigação, publicada na prestigiada revista Chemistry, coincide com a Semana Mundial da AMRAwareness, que decorre de 18 a 24 de novembro. Esta campanha global lançada pela Organização Mundial de Saúde visa aumentar a sensibilização e a compreensão das pessoas sobre a RAM, na esperança de reduzir o aparecimento e a propagação de infeções resistentes aos medicamentos.
Mais de 1,2 milhões de pessoas, e possivelmente mais milhões, morreram como resultado direto de infeções bacterianas resistentes a antibióticos em 2019, de acordo com a estimativa mais abrangente até agora sobre o impacto global da RAM. A investigação poderá abrir caminho a novas formas de resolver um problema que mata mais pessoas todos os anos do que a SIDA ou a malária.
O pesquisador principal Luke Brennan, do Departamento de Química da Universidade de Maynooth, disse: "Estamos descobrindo novas moléculas e estudando como elas se ligam aos ânions, que são substâncias químicas com carga negativa que são extremamente importantes na bioquímica da vida. Estamos estabelecendo as bases para a prevenção e tratamento de doenças que vão do câncer à fibrose cística."
Usando uma abordagem de “cavalo de Tróia” para combater bactérias resistentes a medicamentos
O trabalho, baseado no uso de transportadores de íons sintéticos, mostra pela primeira vez que o influxo de sais (íons sódio e cloreto) nas bactérias pode causar uma cascata de eventos bioquímicos que levam à morte celular bacteriana - mesmo em cepas resistentes aos antibióticos atualmente disponíveis, como o Staphylococcus aureus resistente à meticilina (MRSA).
Robert Elms, co-autor do estudo do Instituto Catherine Lonsdale de Saúde Humana da Universidade de Maynooth, disse: “Este trabalho mostra que usando a nossa abordagem – um ‘cavalo de Tróia’ que causa um influxo de sal nas células – podemos efetivamente matar bactérias resistentes aos medicamentos de uma forma que contraria os métodos conhecidos de resistência bacteriana”.
“As bactérias trabalham arduamente para manter uma concentração estável de íons dentro de suas membranas celulares”, continuou Elmes. "Uma vez que esse delicado equilíbrio é interrompido, as funções normais da célula são interrompidas e a célula não consegue sobreviver. Essas moléculas sintéticas se ligam aos íons cloreto e os envolvem em uma 'manta de gordura', permitindo que se dissolvam facilmente na membrana celular bacteriana, trazendo íons para dentro deles e perturbando o equilíbrio iônico normal. Este trabalho é um exemplo de como o conhecimento básico da química pode impactar uma necessidade não atendida na pesquisa em saúde humana. "
O professor Kevin Kavanagh, microbiologista do Departamento de Biologia da Universidade Maynooth, comentou: "O aumento nas taxas de infecção por bactérias resistentes a medicamentos é uma grande preocupação. Este trabalho é um exemplo de químicos e biólogos trabalhando juntos para desenvolver novos agentes antibacterianos com potencial futuro significativo."
Estes resultados abrem caminho para o desenvolvimento potencial de transportadores de aniões como alternativas viáveis aos antibióticos existentes, o que é urgentemente necessário à medida que o problema da RAM continua a aumentar.