Um estudo recente publicado na revista “Food Quality and Preference” mostra que quando as pessoas “roubam” batatas fritas dos pratos de outras pessoas, mesmo que as batatas fritas sejam fisicamente idênticas às que estão nos seus próprios pratos, elas subjetivamente parecem mais perfumadas, mais crocantes e mais deliciosas. A pesquisa sugere que os “alimentos proibidos” podem de fato ser psicologicamente mais saborosos.

O experimento, liderado por Valentin Skryabin, psicólogo especializado em dependência química da Academia Russa de Educação Médica Continuada, recrutou 120 adultos para participar. Os participantes provaram porções idênticas de batatas fritas em quatro situações: batatas fritas do seu próprio prato, batatas fritas dadas a eles por outra pessoa, uma situação de baixo risco em que comeram as batatas fritas de outra pessoa sem permissão e uma situação de alto risco em que comeram as batatas fritas de outra pessoa sem permissão.
Verificou-se que na condição “retirada” sem permissão, os participantes avaliaram o sabor dos chips significativamente mais alto e eram mais propensos a descrevê-los como “mais crocantes, mais salgados e mais ricos em sabor”. Em particular, a pontuação de “prazer de sabor” das batatas fritas roubadas na situação de alto risco foi quase 40% superior à das batatas fritas no prato do próprio sujeito. Esta diferença não provém de mudanças no alimento em si, mas é inteiramente motivada por diferenças na forma como ele é obtido.
Os participantes relataram sentimentos mais fortes de culpa e excitação ao “roubar”, mas os pesquisadores apontaram que a culpa e a excitação por si só não foram suficientes para explicar o grande aumento nas avaliações do paladar. Scriabin sugere que as propriedades “proibidas” provavelmente desempenham um papel central na melhoria da experiência subjetiva. Ele propôs que pelo menos três mecanismos psicológicos e fisiológicos influenciam simultaneamente a percepção do paladar das pessoas.
O primeiro mecanismo é a “reatância psicológica”: uma vez que algo é definido como algo restrito ou não que deveria ser possuído, as pessoas tendem a desejá-lo mais por causa disso. Este fenômeno foi bem documentado em pesquisas psicológicas anteriores. O segundo mecanismo é o efeito de excitação: quando uma pessoa está fazendo algo “que não deveria ser feito”, a frequência cardíaca aumentará e a atenção ficará mais focada. Este nível mais elevado de excitação fisiológica amplificará os sinais sensoriais das papilas gustativas, fazendo com que as mesmas sensações salgadas e crocantes pareçam mais intensas e satisfatórias.
O terceiro fator diz respeito às expectativas. Scriabin destacou que, desde a infância, as pessoas têm recebido continuamente o conceito de que “comida roubada tem melhor sabor” em ditados diários, histórias e até provérbios, e o cérebro “verificará” ativamente essa expectativa, amplificando subjetivamente essa experiência. Ele enfatizou que esses três mecanismos não são mutuamente exclusivos, mas provavelmente se sobreporão e se fortalecerão na realidade e, em última análise, criarão em conjunto a sensação de que “as batatas fritas roubadas têm um sabor melhor”.
O estudo também descobriu que variáveis demográficas como idade e sexo não tiveram impacto significativo nos resultados. A experiência não utilizou uma escala formal de personalidade, pelo que ainda não é possível avaliar se traços de personalidade como “busca de emoções” ou “tendências para assumir riscos” estão envolvidos, mas Scriabin acredita que esta será uma “extensão natural” da investigação subsequente.
No entanto, este estudo também tem limitações importantes. No desenho experimental, os participantes foram instruídos pelos pesquisadores a “roubar” batatas fritas, o que estava mais próximo de um “cruzamento dos limites” simbólico do que de uma violação ética ou legal real. Scriabin advertiu que não se pode simplesmente presumir que o desvio simulado é completamente neurobiologicamente equivalente ao desvio real, e parte da culpa observada no experimento pode ser apenas o fato de os participantes estarem “desempenhando um papel”.
O nível de fome foi um dos poucos fatores que alterou o tamanho do efeito. Os participantes que estavam com mais fome antes do início do experimento mostraram um efeito de “roubo” ligeiramente mais fraco. A equipa de investigação especula que quando o próprio impulso fisiológico da fome já é elevado, a embalagem situacional da aquisição de alimentos é relativamente menos importante, embora este efeito seja apenas modesto e limitado.
No geral, este trabalho destaca o papel do contexto, da emoção e das regras sociais na formação da experiência sensorial, mostrando como a culpa e o prazer podem coexistir. Scriabin salienta que isto pode parecer “perverso” da perspectiva de simples intuições morais, mas se pensarmos em ambas como respostas diferentes aos “riscos sociais percebidos”, não é difícil compreender porque é que aparecem juntas.
A experiência actual foi deliberadamente concebida para ser altamente homogénea: apenas examinou fenómenos no mesmo ambiente de laboratório, no mesmo alimento (batatas fritas) e numa única situação de degustação. Os investigadores, portanto, ainda não sabem se este “efeito da fruta proibida” pode ser generalizado para outros alimentos, como o queijo, que já foi relatado como “o alimento mais roubado do mundo” – Scriabin também considerou o queijo como um candidato para o próximo passo.
Ele especulou ainda que este mecanismo pode não estar limitado à comida em si. Da Bíblia à "Divina Comédia" de Dante, as narrativas de "frutos proibidos são mais tentadores" podem ser vistas em todo o lado nas tradições literárias e culturais, o que implica que o fenómeno das "restrições amplificam os desejos" é provável que prevaleça em muitos campos, tais como escolhas de consumo, aquisição de informação e até mesmo atracção romântica. No entanto, sublinhou também que a conclusão actual se baseia apenas num estudo e que é necessário ter cautela ao extrapolar para um campo mais vasto.
No nível experimental, os alimentos são uma “plataforma de teste” ideal precisamente porque são fáceis de padronizar: os pesquisadores podem controlar rigorosamente o peso, a temperatura e o método de preparação de cada porção para manter um alto grau de consistência entre os diferentes sujeitos. Em contraste, a maioria das outras “coisas proibidas” lutam para alcançar este nível de uniformidade. Scriabin acredita que o cérebro atribuirá ativamente um valor de prazer mais elevado às experiências que são contestadas ou restritivas, mas se esta “recalibração sensorial” relacionada com o contexto também pode ocorrer fora do paladar ainda é uma questão em aberto a ser explorada.