Grande parte da discussão em torno das alterações climáticas e do impacto humano no ambiente centra-se em factores como as calotas polares e as temperaturas globais médias. No entanto, um inquérito publicado recentemente examina uma gama mais vasta de factores para ilustrar como a civilização humana está a caminhar para um território desconhecido em comparação com os milénios anteriores.

De acordo com uma análise publicada recentemente e baseada numa extensa investigação, a Terra ultrapassou seis das nove fronteiras ambientais que sustentaram as condições para o desenvolvimento da civilização humana. O estudo tenta ter uma visão ampla de como a Terra está mudando de uma forma que a sociedade moderna nunca experimentou.

As alterações climáticas – o aspecto mais discutido do impacto humano na ecologia – são apenas um factor que perturba as condições que persistiram na Terra ao longo dos últimos 10.000 anos ou mais. Outros factores, como a biodiversidade, a cobertura florestal, o abastecimento de água doce e os fluxos biogeoquímicos (a relação entre a água doce, os oceanos e o solo), também excedem largamente os padrões estabelecidos durante este período.

O termo "Holoceno" descreve a relativa estabilidade da temperatura e do meio ambiente da Terra desde o final da última Idade do Gelo, cerca de 10.000 anos atrás. Toda a complexa história da civilização humana, incluindo a agricultura e a construção urbana, ocorreu durante este período. Os cientistas utilizam nove “fronteiras” para definir o ambiente propício a este desenvolvimento, e todas estas fronteiras têm estado em perigo desde o início da Revolução Industrial.

Na imagem acima, as áreas verdes representam os ambientes aos quais os humanos modernos estão acostumados, enquanto as áreas vermelhas representam limites que foram ultrapassados. O vermelho escuro indica quais áreas estão em maior risco. As duas extremidades do gráfico estão confusas porque os pesquisadores não têm informações relevantes suficientes ou não sabem até que ponto a situação pode se tornar anormal.

A integridade da biosfera, envolvendo a biodiversidade, é a área que corre maior risco. A investigação mostra que a utilização humana do solo fez com que as taxas de extinção de espécies ultrapassassem os níveis normais do Holoceno no final do século XIX, e que a explosão populacional e a produção de alimentos que começou na década de 1960 agravaram o problema. Contudo, a análise sublinha que a sobrepopulação não é o problema principal. Teoricamente, a civilização humana pode alimentar uma população de 10 mil milhões através de ajustes apropriados, mantendo ao mesmo tempo a estabilidade ambiental.

Uma área onde os riscos potenciais da intervenção humana permanecem em grande parte desconhecidos envolve substâncias artificiais, como microplásticos, materiais nucleares e vários produtos químicos. Embora os possíveis efeitos adversos destas substâncias na saúde humana e no ambiente tenham sido amplamente discutidos, ainda não está claro se ameaçam a habitabilidade da Terra. As consequências a longo prazo destes materiais artificiais, o seu impacto na ecologia e as suas interacções com os sistemas naturais são assuntos de investigação e interesse actuais.

Os níveis de ozônio são um exemplo de como os humanos conseguiram reverter as condições para os padrões do Holoceno. Desde a ratificação do Protocolo de Montreal em 1987, as taxas de destruição da camada de ozono recuperaram e agora excedem os limites seguros apenas na Primavera na Antártida e nas altas latitudes meridionais. Os cientistas dizem que este e outros fatores provam que não é tarde demais para agir.